quarta-feira, 19 de novembro de 2008

O fenômeno Obama ou como um mestiço conquistou a América


A eleição de um afro-americano para o comando da maior nação bélica do planeta era, há muito pouco tempo, algo tido como improvável, e até mesmo quase impossível de ser aceito por muitos analistas políticos não somente nos EUA, mas em todo o resto do mundo. A escolha de um senador negro para a Casa Branca pode ser considerada um grande passo na luta contra o preconceito racial nos Estados Unidos, colocando uma breve trégua a um apartheid que ainda se mantêm ativo em suas entranhas sociais. Para refletirmos sobre a conquista de Barack Obama frente ao pleito norte-americano, sob a perspectiva de uma conquista racial, vale ressaltarmos a luta anti-segregacionista ocorrida no país durante a década de 1960, movida por Martin Luther King e Malcolm X, além de Huey Newton e Bobby Seale, fundadores do Partido dos Panteras Negras.

Eu tenho um sonho

No dia 28 de agosto de 1963, o pastor e ativista político Martin Luther King Jr. falou de seu sonho para todos os seus concidadãos da América nos degraus do Lincoln Memorial, em Washington, Distrito de Columbia. Naquele dia, com a estátua do ex-presidente Abraham Lincoln servindo de honroso púlpito, Luther King declamou seu discurso de mobilização social pela luta contra o apartheid nos EUA e o respeito aos direitos civis dos negros e das mulheres no país e no mundo, através de um manifesto de não-violência e de amor ao próximo. King considerava que as idéias de desobediência não-violenta, difundidas pelo líder indiano Mahatma Gandhi, aplicavam-se também aos Estados Unidos. Em seus conceitos sobre a idealização de mudanças, afirmava que a realização de protestos pacíficos contra o sistema segregacionista norte-americano, principalmente na parte sul do país, conseguiria atingir um clamor público favorável à causa dos direitos civis da população negra. Mas, esse era um pensamento que nem todos compartilhavam.
Enquanto Martin Luther King acreditava que a resistência pacífica agiria como uma arma contrária ao racismo e a segregação, Malcolm Little, um dos principais defensores dos direitos dos negros no país, defendia a separação das raças, a independência econômica e a criação de um Estado autônomo para os negros. Segundo ele, a questão negra não era apenas uma questão social, mas sim uma questão política, civil e econômica. Sua aproximação com os ideais socialistas o levou a perceber que a questão do negro americano passava pela estrutura opressora do capitalismo. Através dessa nova forma de interpretação do cotidiano social norte-americano, Malcolm X idealizou a Organização da Unidade Afro-Americana, uma entidade focada nos problemas das minorias sociais da população dos Estados Unidos. A sua opção pelo assistencialismo e pela violência foi de grande relevância para o surgimento de importantes movimentos no fim da década de 1960, como a criação do Partido dos Panteras Negras. Little ponderava que a violência não poderia ser interpretada como um ato de barbárie, mas como um meio legítimo de conquistas, reafirmando em seus discursos que todas as mudanças históricas da humanidade se deram através dela. A violência proposta por Malcolm X era, portanto, um método de transformação e não uma agressão gratuita.
O Partido Pantera Negra para Auto-Defesa, mais tarde Partido Panteras Negras, foi fundado na cidade de Oakland, na Califórnia, por Huey Newton e Bobby Seale, no ano de 1966. No início de suas atividades, o idealismo político dos Panteras consistia em promover patrulhas pelos guetos negros oferecendo proteção aos moradores contra os atos de brutalidade praticados pela polícia nos subúrbios. Logo mais, além dessa ‘proteção’, o grupo passou a reivindicar a isenção do pagamento de quaisquer tributos pelos negros e exigiam outros direitos contrários à igualdade de convivência social, tornando tais pedidos arbitrários e impossíveis de serem aceitos. Uma ala mais radical do partido defendia a luta armada a favor dessas exigências. Os conflitos entre membros dos Panteras Negras e a polícia nas décadas de 1960 e 1970 provocaram várias mortes, incluindo a prisão de Newton sob a acusação de ter assassinado um policial. A violência causada pelo conflito gerou uma hostilização ainda maior por parte da polícia com relação aos negros e aos Panteras. Em meados da década de 1970, já sem a total simpatia de vários líderes negros e com muitos de seus membros presos, o Partido dos Panteras Negras abandonou a violência por uma política convencional de prestação de serviços sociais nas comunidades negras americanas.
Todo esse idealismo igualitário para uma equiparação racial entre negros e brancos, sonhado pelos muitos ativistas que participaram daquela época, foram concretizados com o resultado das urnas nas últimas eleições. A escolha do senador de Illinois, Barack Obama, como presidente dos Estados Unidos, e o primeiro negro a sentar na cadeira que pertenceu a George Washington, tem uma significação, em especial, devido à segregação de cor que sempre predominou no território norte-americano.

Onde a cor influenciou na disputa?

Se você parar para rever alguns artigos e vídeos veiculados ao candidato Obama, enquanto transcorriam os meses antes das eleições, poderá observar que em momento algum ele usa o artifício de ser negro para pedir votos. Ao contrário, ao deixar que os outros agregassem significados raciais para a sua candidatura, o senador se isentou de comentar assuntos relativos à luta pela igualdade dos negros no país. A estratégia de campanha de Barack Obama, nesse caso em específico de ser um candidato que está desafiando a história, foi colocar-se como uma figura que nega a história, que ignora tabus pré-estereotipados. O intuito foi, durante todo o tempo, retirar o estigma de um candidato negro que concorria à Casa Branca, mas não rejeitando o apoio daqueles que viam nisso uma vitória racial. Uma boa jogada de marketing da equipe de campanha foi a data escolhida para um dos discursos mais importantes de sua candidatura - 28 de agosto -, ocorrida em Denver, no estado do Colorado, coincidindo com o 45º aniversário do discurso “I have a dream”, de Martin Luther King. A alusão à data tornou o evento uma comparação não assumida, mas induzida a uma correlação entre ambos os líderes.
Outra confirmação de que Obama manteve afastado o estereótipo de negro pode ser observado no discurso de comemoração por sua indicação para concorrer à presidência pelo Partido Democrata, derrotando a senadora por Nova York, Hillary Clinton. Em seu pronunciamento, não há menção sobre sua raça, apenas uma dedicatória à sua avó. O mesmo aconteceu no seu discurso após a vitória sobre o republicano John McCain. “Se pessoas ainda têm dúvidas de que a América é o lugar onde as coisas são possíveis, que ainda acreditam que os sonhos dos nossos fundadores ainda estão vivos, se ainda questionam o poder da nossa democracia, esta noite é a sua resposta”. Não há nada que o vincule, novamente através de seus agradecimentos, sobre ter sido apoiado, ou eleito, por uma bandeira ideológica consolidada à sua condição de negro. Ao contrário, em um país onde somente 12% da população são negras, seria um desastre utilizar essa estratégia como lema de campanha para alcançar a aprovação do seu nome como o representante máximo do Estado.

O que ocorreu então?

Embora a vitória de Obama traga um simbolismo histórico a uma nação marcada pelo preconceito racial, a eleição de um democrata não surpreende. Devido ao processo de recessão e a grave crise financeira no país, as chances do Partido Republicano diminuíram bastante, tornando quase remotas a continuidade através de mais um mandato. Grande parte da derrota republicana deve-se aos baixos índices de popularidade do presidente George Walker Bush. Os eleitores culpam a Presidência pela crise instaurada e não pensam no governo como um conjunto político. Esse fato impulsionou a escolha por Obama em muitos estados vencidos por Bush em 2004.
Superficialmente, o candidato derrotado John McCain parecia ter todos os requisitos para conseguir a cadeira presidencial: é detentor de uma boa experiência política, reconhecido por ‘bravura e heroísmo’ durante a Guerra do Vietnã e conhecedor de política internacional. Seu adversário à Casa Branca era apenas um político inexperiente e quase desconhecido senador negro do estado de Illinois. Até a essa análise, as chances de Obama eram quase improváveis, mas vários fatores prejudicaram a campanha de McCain. O primeiro, e talvez o maior deles, foi conseguir arrecadar dinheiro para competir com os US$ 650 milhões arrecadados por Obama. Por ter aceitado verbas federais - ajuda que Barack Obama dispensou - o republicano limitou o gasto máximo de sua campanha em “míseros” US$ 85 milhões. O Comitê Nacional Republicano, incluindo alguns grupos pró-John McCain, gastaram bem mais do que isso. A habilidade de Obama em se apresentar nos canais de televisão também influenciou na derrota do candidato que, para piorar, tinha dinheiro necessário para forçar McCain a gastar em Estados que, teoricamente, eram republicanos. Com a verba reduzida, o veterano pouco pode fazer para reverter o quadro de derrota que se instaurava cada vez mais sobre a sua candidatura. Outra dificuldade enfrentada por McCain foi tentar se distanciar da imagem negativa do governo de George W. Bush sem rejeitar explicitamente o seu apoio. Como a maioria dos republicanos mais leais, manteve a sua solidariedade a Bush alegando apenas que seria um presidente diferente. Essa alegação foi colocada várias vezes por Obama nos debates que aconteceram pelo país, relacionando o fato a um continuísmo do atual governo. Outro fator que prejudicou a candidatura de John McCain à presidência foi a fragilidade política de sua vice, a governadora do Alaska, Sarah Palin. Sua indicação foi uma grande aposta para acalmar a ala direita do partido, formada em sua maioria pela bancada evangélica, que não foi tão simpatizante com a escolha de McCain como o candidato representante do partido para a corrida presidencial. A escolha de Palin como companheira de chapa, sem ao menos a candidata possuir um know-how nacional ou internacional que a qualificasse para o cargo, também foi argumentado pelos democratas como fator de fragilidade política dos republicanos. Nas poucas entrevistas que deu, Sarah Palin deixou claro que não entendia de questões de política internacional com a mesma profundidade que qualquer um de seus adversários. Na verdade, John McCain não conseguiu manter uma linha de coerência em seu discurso político, passando de herói de guerra a profundo conhecedor da política e mais tarde alterando-o para um candidato dissidente do modo de governo implantado por Bush. Em toda a campanha, ele em nenhum momento conseguiu abalar a candidatura democrata. Foram perceptíveis, em alguns debates televisivos, o autocontrole de McCain para conter um semblante sereno quando atacado por Obama. Talvez essa falsa característica para um ex-combatente de guerra tenha gerado uma cobertura negativa da imagem do candidato entre os eleitores que acreditavam na força de um super-homem.
Em uma análise final, a candidatura de John McCain à Casa Branca projetava a figura de um homem voltado ao saudosismo dos bons tempos republicanos nos Estados Unidos, de um cidadão público que passou por muita coisa e serviu bem ao seu país. Mas, para uma nação decepcionada com o regime republicano, e o apelo de um adversário mais jovem com uma mensagem de mudanças na postura administrativa americana, foram inimigos que McCain não conseguiu vencer durante esta que, talvez, tenha sido a sua última grande batalha. (CS)



Imagem creditada a Associated Press


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terça-feira, 4 de novembro de 2008

A sucessão presidencial passa por Minas


“O primeiro juízo que se faz da mente de um príncipe é observar os homens que ele tem a seu lado. Quando eles são capazes e fiéis, podemos considerá-lo sábio, porque soube reconhecê-los suficientemente e mantê-los fiéis; quando, porém, não forem assim, pode-se fazer mau juízo dele, pois o primeiro erro que comete é o desta escolha”.
Observando as palavras do escritor italiano Nicolau Maquiavel, proferidas no distante século XVI, as alianças que se constroem dentro do jogo político são a base do sucesso ou da ruína de qualquer postulante a um cargo governamental. Porém, uma ressalva plausível de ser comentada, em se tratando de atitudes políticas, é quanto ao seu inimigo partidário se tornar o seu principal aliado para a conquista de um projeto ainda maior de dominação e poder. Isso para ambos. O melhor cenário para essa referência analítica foi as eleições municipais de 2008 em Belo Horizonte e a polêmica aliança entre o atual prefeito Fernando Pimentel (PT-MG) e o governador Aécio Neves (PSDB-MG), em prol da candidatura do socialista Márcio Lacerda (PSB-MG). A união petista e tucana provocou um racha nas bases aliadas ao alcaide, inclusive com longos debates sobre a legalidade dessa parceria pelos membros da executiva nacional do Partido dos Trabalhadores. O resultado da insatisfação com a atitude de Fernando Pimentel foi o lançamento da candidatura da deputada federal Jô Moraes (PCdoB-MG), ex-aliada política e apoiada por dissidentes petistas, como opção contrária ao acordo entre o prefeito e o governador. Não é nenhuma novidade que toda essa articulação visa exclusivamente as próximas eleições do pleito de 2010.
O acordo deu-se da seguinte forma: o empresário Márcio Lacerda é um ilustre desconhecido da maioria da população belo horizontina, apesar de ter ocupado cargos de relevância nos governos Lula e Aécio Neves. Mesmo com o apadrinhamento e o apoio de peso do prefeito e do governador, Lacerda iniciou o primeiro turno como o terceiro colocado em uma disputa com nove concorrentes. Com o início das propagandas eleitorais no rádio e na televisão, o candidato da aliança alcançou o primeiro lugar, mas não conseguiu decidir a eleição já no primeiro turno. Ataques constantes de seus adversários, principalmente da candidata Jô Moraes, fêz-lo disputar o segundo turno com o peemedebista Leonardo Quintão. O deputado federal, a propósito, conquistou a simpatia do eleitorado com uma campanha popularista de proximidade com o cidadão, priorizando o contato direto com o público através de caminhadas e de um discurso simplista de como gerenciar a cidade. Durante as semanas que precederam à segunda votação, os candidatos mantiveram as trocas de acusações e pouco se falou das propostas para o município. Apesar de, inicialmente, as pesquisas divulgadas pelo Instituto Ibope apresentarem uma vantagem de aproximadamente 30% de diferença a favor do candidato do PMDB, o aspirante a prefeito não conseguiu manter a liderança estabelecida. A chapa de Márcio Lacerda, tendo o petista Roberto Carvalho como vice, foi eleita com 767.332 votos, ou 59,12% dos válidos, e Leonardo Quintão, junto com o seu vice Eros Biondini, obtiveram 530.560 adesões a suas propostas políticas.
Dentre as promessas de Márcio Lacerda para a sua gestão municipal encontram-se a construção de um hospital metropolitano na região do Barreiro, a criação de dez mil novas moradias em vilas e favelas, a expansão da capacidade do metrô dos atuais 150 mil para 800 mil passageiros/dia, a construção de 12 escolas de ensino fundamental e a ampliação de outras seis, a implantação de 100 novos postos de acesso à internet na capital, além de outros compromissos acordados com a população. Para isso, Lacerda conta com o apoio de uma bancada de 34 vereadores dentre os 41 que exercerão o mandato eletivo para os próximos quatro anos. Para o futuro prefeito, a manutenção da governabilidade de seu mandato passa pelo equilíbrio nas relações entre o executivo e o legislativo e será a base principal para alavancar o real projeto por trás de sua candidatura.
Aliás, a vitória de Márcio Lacerda, apesar de toda ajuda política que recebeu, foi um mérito próprio de seu esforço em conquistar os votos dos indecisos e dos eleitores descrentes da sua pessoa. Dois fatores foram fundamentais para as mudanças nas intenções de voto: com o quase empate técnico no primeiro turno, Lacerda foi obrigado a buscar o apoio popular para promover uma restauração da sua imagem pública, atacada duramente pelos candidatos concorrentes que o denunciavam sobre uma possível participação no caso do Mensalão. Certo de que o apoio recebido até então do governador e do prefeito não faria diferença para uma possível transferência de votos, Lacerda tentou reverter o quadro através de um corpo a corpo com o eleitorado, apesar das dificuldades em manter um relacionamento com o cidadão que, desconfiado, ainda não havia decidido pela aceitação do candidato. Outro fator importante para a ascensão de sua candidatura foi a falta de competência do candidato Leonardo Quintão em administrar a vantagem obtida no primeiro turno. Um dos erros de Quintão foi não manter uma postura oposicionista nem ao prefeito e nem ao governador, o que agradaria aos eleitores que discordavam da aliança. Contrariando alguns de seus coordenadores que insistiam em uma posição mais clara e mais firme na sua atitude política, o deputado federal adotou em boa parte de sua campanha um discurso de elogios tanto para um, quanto para o outro, afirmando sempre que possível, a sua pretensão de ser mais um parceiro do presidente Lula. Além do mais, Leonardo Quintão, atualmente com 33 anos de idade, aumentou a sua fragilidade política ao adotar um linguajar cheio de equívocos gramaticais diante das câmeras de televisão, incluindo um modo quase infantil ao expressar suas idéias e projetos administrativos para a cidade. Esse engodo o transformou em motivo de deboche na internet, além de diminuir circunstancialmente as suas chances de vitória durante o segundo turno. Não querendo cometer ou ser vítima de um erro histórico, boa parte da população optou por Márcio Lacerda como sendo o mais capacitado para administrar a capital mineira.

Vencedores X Derrotados

Alguns nomes de peso nacional estiveram envolvidos nas coligações que concorreram à composição da Câmara Municipal e à Prefeitura de Belo Horizonte para 2009. O desgaste nas relações políticas entre o prefeito Pimentel e a sua antiga base, em referência à ala esquerdista que não concordou com a aliança, favoreceu o crescimento do PMDB como alternativa para os que foram derrotados no primeiro turno.
Pelo lado da situação, a coligação formada pela aliança política entre a cidade e o estado contou com a participação do governador Aécio Neves, do prefeito Fernando Pimentel, dos deputados federais Virgílio Guimarães e Miguel Côrrea Júnior, além da base aliada de vereadores que formam a bancada de apoio.
Pelo lado democrata, estiveram presentes os ministros Hélio Costa (PMDB-MG), Patrus Ananias (PT-MG), Luiz Dulci (PT-MG), o vice-presidente da República José Alencar, além da candidata derrotada Jô Moraes incluindo o delegado regional do Ministério do Desenvolvimento Agrário, o ex-deputado Rogério Côrrea.
Indiscutivelmente, os maiores vencedores deste embate nas urnas foram o governador Aécio Neves e o prefeito Fernando Pimentel. Articuladores ideológicos da união entre tucanos e petistas, ambos conseguiram emplacar a candidatura de Márcio Lacerda apoiado por uma união entre partidos rivais no segundo maior colégio eleitoral do país. Apesar da vitória em Minas, uma mesma aliança em nível nacional é um fato quase impossível de ser realizado. Mesmo saindo fortalecidos da disputa, a conquista da prefeitura municipal apenas no segundo turno frustra as pretensões de Aécio Neves em fortalecer a sua candidatura à presidência da república pelo PSDB, o mesmo ocorrendo com Fernando Pimentel na disputa pelo Palácio da Liberdade. Para o prefeito, a situação é um pouco mais difícil. Para se eleger governador em 2010, Pimentel terá que cicatrizar as feridas deixadas dentro PT mineiro após a coligação com o governador, além de disputar a vaga com outros nomes importantes do partido e fora dele. A reaproximação com o ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Patrus Ananias, e com o chefe da secretaria-geral da Presidência, ministro Luiz Dulci, será de extrema importância para Pimentel consolidar o seu nome na disputa pela indicação ao governo do Estado. No caso de Aécio Neves, o seu maior oponente será o governador de São Paulo, José Serra. Aliás, ambos foram criticados por fazerem alianças contrárias à orientação do PSDB.
No cenário paulista, o governador José Serra sustentou seu apoio partidário de forma um pouco distante do candidato Geraldo Alckmin, mantendo-se tímido na campanha tucana à prefeitura. Ao contrário, no segundo turno, teve participação efetiva na defesa do atual prefeito Gilberto Kassab (DEM-SP). A derrota da candidata Marta Suplicy (PT-SP) deu a José Serra o maior colégio eleitoral do Brasil e, mantendo-se uma possível aliança com os Democratas, o governador é um fortíssimo candidato a indicação do partido para ser cabeça de chapa na sucessão do presidente Lula. A diferença entre as alianças tucanas pode ser explicada assim: em Minas, Aécio Neves procurou a aproximação com seus adversários políticos enquanto que, em São Paulo, José Serra tentou resgatar amizades com antigos aliados.
Sobre os derrotados, além do candidato Leonardo Quintão, outros importantes políticos tiveram seus sonhos frustrados pelas urnas. A candidata Jô Moraes foi derrotada duas vezes: em primeiro turno, quando ficou em terceiro lugar na disputa e no segundo, ao dar seu apoio ao peemedebista mesmo sem o consenso do seu partido. O ministro Patrus Ananias foi um dos principais críticos à aliança com os tucanos dentro do partido. Como não conseguiu evitá-la e ainda com o insucesso da candidata do PCdoB para alcançar a prefeitura, decidiu não apoiar nenhum candidato. Assim também ocorreu com o ministro Luiz Dulci. O vice-presidente José Alencar não conseguiu transferir votos para o candidato Leonardo Quintão, passando quase que despercebida a sua participação na campanha peemedebista. Mas, o maior derrotado nessa corrida para o Palácio da Liberdade foi o ministro Hélio Costa. Com a derrota de seu candidato, Costa viu suas chances diminuírem para uma disputa mais acirrada com os outros candidatos ao governo de Minas. O ministro confiava em uma vitória em Belo Horizonte para construir a sua candidatura ao governo do estado. Um trunfo que pode favorecer o futuro candidato nas próximas eleições é o fato de que o seu partido, o PMDB, possuir as maiores bancadas no Senado e na Câmara, além de ter saído fortalecido nacionalmente no último pleito municipal.
A importância de Minas e São Paulo no cenário político nacional é a grande cartada que o PSDB guardará em suas mãos para 2010. Com o sucesso das alianças tecidas por Aécio e Serra, o presidente Luiz Inácio terá dificuldades em validar o nome da ministra Dilma Rousseff para sucedê-lo no Planalto. Para obter êxito em seu projeto, Lula terá que conseguir o apoio em três estados estratégicos para manter a governabilidade no caso de uma possível vitória da ministra. Sendo assim, tende a aliar-se aos peemedebistas, já que o partido possui uma grande representatividade no cenário nacional. No Rio de Janeiro, o presidente deverá apoiar um nome que seja candidato pelo PMDB, podendo ser o atual governador Sérgio Cabral, que também teve o seu nome comentado como vice na chapa petista. Em Minas, Lula desejaria a cabeça de chapa. Os mais indicados são o prefeito Fernando Pimentel e o ministro Patrus Ananias mas, devido a uma possível reivindicação do PMDB por uma coligação no estado, o ministro Hélio Costa também pode ser considerado como um nome forte para 2010. Em São Paulo, a situação se repete, com uma propensão a uma aliança PT/PMDB. Essa colcha de retalhos, com emendas e costuras ainda a serem produzidas, fará parte, daqui para frente, do cotidiano político e das manchetes jornalísticas para os próximos dois anos. (CS)

Fotografia: Claudinei Souza

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segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Trânsito será o grande dilema para a próxima administração


Considerado um dos maiores problemas da administração pública, o sistema de trânsito das grandes capitais tem sido o assunto principal de vários encontros por todo o país. Os discursos debatem sobre as dificuldades para a manutenção do sistema viário e as possíveis soluções que podem ser utilizadas para um melhor fluxo nos principais centros, além de melhorias no acesso da população aos pontos comerciais.
Em Belo Horizonte, técnicos da prefeitura prevêem que o trânsito da cidade tende a ficar mais crítico em alguns dos principais corredores, caso não haja intervenções nestes locais. Segundo dados divulgados pelo Detran-MG, a frota de veículos na capital supera um milhão de emplacamentos. Grande parte desse problema pode ser atribuído às campanhas comerciais e às facilidades propostas para o financiamento na compra de veículos. Os descontos e promoções mirabolantes induzem o consumidor à valorização do transporte particular, aumentando o número de congestionamentos na cidade. Outro fator prejudicial relacionado ao caos do trânsito é a infra-estrutura das vias públicas. Apesar das melhorias, Belo Horizonte ainda registra altos índices de engarrafamentos e lentidões, principalmente em sua área central. A criação de novas malhas de circulação que evitem esse problema requer não somente liberações políticas, mas necessita de um plano de ação que abriga projetos e desocupações de moradores, fato muitas vezes prejudicial aos que deixam suas casas. Outra grande dificuldade enfrentada pela prefeitura são os locais para o estacionamento no centro da capital. Com o constante crescimento do número de veículos nas ruas, o pedestre passou a dividir os poucos espaços nos passeios com uma barreira de carros e motocicletas o envolvendo nas calçadas. Tudo regulamentado por placas e fiscalizado pelos agentes da Bhtrans.
Segundo o Governo Federal, a política de mobilidade urbana sustentável deve ser praticada como um conjunto de ações que visa proporcionar o acesso amplo e democrático aos espaços urbanos, priorizando a redução de impactos ambientais e sociais. Para que parte disso ocorra em Belo Horizonte, algumas mudanças comportamentais deverão ser aplicadas futuramente no cotidiano da cidade. Uma dessas possíveis alterações será, caso não haja uma mudança realmente significativa que atenda o sistema viário urbano, a implantação do rodízio de veículos no trânsito da capital. Talvez esse seja um sistema de deslocamento no transporte que será quase inevitável aos grandes centros populacionais do país. Criado em outubro de 2007 pela prefeitura de São Paulo, o revezamento foi implantado inicialmente para melhorar a qualidade do ar na capital paulista. A idéia era diminuir a poluição atmosférica durante o inverno, quando o ar fica mais seco, através da redução do número de veículos em circulação.
Mesmo com esses investimentos na construção e revitalização de ruas e avenidas, Belo Horizonte necessita de novas formas de transporte, além de um maior controle sobre a emissão de gás carbônico na atmosfera, proveniente da combustão nos motores dos veículos. Assim como em outras cidades do mundo, o uso da bicicleta poderá ser uma solução para o trânsito na capital. A criação de ciclovias interligando alguns bairros, além de compartilhar com a política de mobilidade urbana sustentável, é uma alternativa viável para a diminuição do fluxo de veículos nas ruas. É necessário apenas o envolvimento da população em uma campanha de conscientização sobre o futuro do trânsito na capital.
A mudança no Código Brasileiro de Trânsito (CBT) que proíbe o uso de bebida alcoólica, determinando a tolerância zero no trânsito, favoreceu na diminuição de veículos nos finais de semana, principalmente nas áreas dos bares e restaurantes de Belo Horizonte. O problema é um aumento no uso de solicitações de táxis pela população provocando esperas superiores a 30 minutos. Outra proposta para a retirada de veículos no trânsito é a diminuição do valor das tarifas de ônibus, incentivando o uso do transporte coletivo.
Todos esses problemas deverão ser administrados pela próxima gestão da prefeitura de Belo Horizonte, vencida pelo socialista Márcio Lacerda (PSB) no último pleito eleitoral. Aliás, sobre Lacerda, devemos ressaltar que a sua candidatura foi baseada em um acordo político firmado entre o governador Aécio Neves (PSDB) e o atual prefeito Fernando Pimentel (PT), visando as próximas eleições de 2010 (CS).

Fotografia: Claudinei Souza

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Edson Luís e o Calabouço ou o estudo de um mártir a partir de sua significância quanto corpo


Sobre o ano de 1968, este foi marcado pelos movimentos estudantis em todo mundo. As autoridades buscavam conter os vários protestos dos estudantes através do uso da força e de mecanismos de repressão. No Brasil, o governo manteve uma linha dura com punições, cassações, suspensão de direitos políticos, prisões, espancamentos, torturas, desaparecimentos e ocultação de cadáveres, exílio e várias outras atrocidades contra o direito civil. Durante a Guerra Fria havia uma enorme indução norte-americana sobre a sociedade brasileira. Essa influência foi percebida em diversas áreas das esferas sociais, como na música, cinema, na alimentação e no estilo de vida de alguns brasileiros. Mas foi na educação que a ingerência dos Estados Unidos acabou por provocar os estudantes universitários, liderados pelo diretório estudantil da UNE. Segundo os dirigentes da União Nacional dos Estudantes, na época, o governo brasileiro tinha a intenção de modificar, gradativamente, todas as universidades federais em regime de fundação. Essas mudanças foram impostas pela Agência de Desenvolvimento dos Estados Unidos (USAID) em cumprimento aos acordos feitos pelo Brasil com a agência. A não concordância com o que fora acertado pelo Ministério da Educação e Cultura e o órgão norte-americano foi a principal reivindicação dos estudantes naquele momento. Após o golpe, o novo governo instaurado pelos militares promulgou uma lei com o objetivo de sufocar qualquer manifestação estudantil. A "Lei Suplicy", do então Ministro da Educação Flávio Suplicy de Lacerda, proibia a participação dos estudantes em questões políticas, suprimindo a liberdade de organização. Na tentativa de manter o controle sobre as ações dos estudantes, a polícia não hesitava em agir com autoritarismo e violência.
Em março de 1968, a polícia invadiu o restaurante do Calabouço no Rio de Janeiro. O restaurante era mantido pelo Governo para atender estudantes carentes e, naquele dia, um pequeno grupo de estudantes preparava um protesto contra as más condições em que se encontrava o local. Durante a operação, ocorreu um princípio de tumulto entre a polícia e os manifestantes. O estudante do ensino médio Edson Luis Lima Souto, de 18 anos, morreu vítima de um tiro disparado pela polícia. No enterro de Souto, aproximadamente 50.000 pessoas se concentraram em frente à Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. A urna, coberta com a bandeira do Brasil, saiu em cortejo pelas ruas da cidade em meio a um clima de revolta que se expandiu pelo resto do país.
Rememorando quatro décadas após a morte do estudante Edson Luís de Lima Souto, uma parceria entre a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, a Prefeitura do Rio de Janeiro, a União Nacional dos Estudantes (UNE) e a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) inauguraram uma estátua na Praça Ana Amélia, entre a Avenida Churchill e a Rua Santa Luzia, em homenagem ao estudante morto no período da ditadura militar. O jovem Edson foi o primeiro estudante morto de uma seqüência de várias outras vítimas da repressão no Brasil. A sua morte desencadeou um processo de comoção nacional e repúdio à forma truculenta como ocorreu o fato. O mito a ser desconstruído é o uso da imagem do aluno como mártir e a significância da sua morte para a sociedade.

O caso Edson Luís

Paraense nascido em Belém, Edson Luís mudou-se para o Rio de Janeiro para cursar o antigo segundo grau no Instituto Cooperativo de Ensino. A escola funcionava nas dependências do Complexo do Calabouço que, além do restaurante onde ocorreu o homicídio, possuía um teatro e uma policlínica. Ao seu redor funcionavam um pequeno comércio de prestação de serviços, com barbearias, alfaiates e lavanderias. De família humilde, o jovem aluno participava naquele fatídico dia 28 de março de 1968 de uma manifestação contra as condições de funcionamento do restaurante. Segundo ex-integrantes da Frente Unida dos Estudantes do Calabouço, Edson Luís estava distante de ser uma liderança no movimento estudantil. Era apenas um rapaz que falava pouco e colaborava na fabricação de cartazes para a manifestação daquele dia. Um garoto que sonhava cursar a universidade e proporcionar uma vida melhor para a sua família.
O Restaurante Central dos Estudantes foi inaugurado em 1951 na antiga sede da UNE na Praia do Flamengo, mas encerrou os seus dias em um endereço próximo ao Aeroporto Santos Dumont. Era vinculado à Divisão Extra-Escolar do Ministério da Educação e ao Serviço de Alimentação de Previdência Social e administrado pela União Metropolitana dos Estudantes (UME). O nome sub-social é uma alusão à possibilidade de que naquele local tenha existido uma prisão para escravos, além de uma menção ficcional de um lugar marginalizado dentro de um sistema opressor. O Calabouço era um restaurante estudantil que oferecia refeições a baixo custo para estudantes carentes do Rio de Janeiro. Proporcionando diariamente um grande fluxo de pessoas, o local foi palco de manifestos e pedidos de melhorias na educação escolar do país. Algumas dessas intervenções criticavam diretamente o regime político implantado pelo novo governo e as restrições impostas ao movimento estudantil.
No dia 28 de março, um grupo de estudantes organizava uma passeata que deveria sair do restaurante do Calabouço em protesto a qualidade da comida e ao aumento no valor da refeição. A manifestação deveria ocorrer no fim da tarde, mas logo foi dispersa pela ação da polícia. Durante esse primeiro confronto, alguns alunos se esconderam nas dependências do restaurante e tentavam revidar contra-atacando com pedaços de paus e pedras. A inesperada retaliação forçou o efetivo policial a recuar para poder traçar uma nova formação para controlar o tumulto. A rua ficou propriamente deserta em meio a uma angustiante paz aparente. Iniciou-se novamente o conflito quando tiros foram disparados próximos ao Edifício da Legião Brasileira de Assistência. Os policiais, temendo que estudantes atacassem a embaixada norte-americana, resolveram invadir o Complexo do Calabouço e acabar de vez com aquela situação que se tornava fora de controle. Testemunhas afirmaram aos jornais da época que Edson Luís acabara de jantar e de que segurava uma bandeja nas mãos quando foi atingido por um golpe de cassetete no ombro. Durante a invasão, o comandante da tropa que fez a incursão no Complexo, Aloísio Raposo, teria sido ferido com uma pedrada e revidou atirando contra os seus agressores, atingindo o estudante com um único tiro certeiro no peito. Outros disparos foram ouvidos e mais pessoas feridas foram socorridas em hospitais, mas Edson morreu na hora. Poderia ser qualquer um, mas foi dado a ele a glória de morrer como mártir de um motim, já que o movimento não mudou em nada a situação do restaurante a não ser declarar definitivamente o seu fechamento e desencadear uma ação mais enérgica do regime contra o movimento estudantil.
O impacto de um corpo dentro daquele universo caótico de sentidos ideológicos foi a nova oportunidade oferecida a sociedade estudantil de reivindicar algo contra o sistema, de ter uma nova bandeira para lutar mesmo contra um oponente que o representa federativamente e, numericamente e belicosamente, muito superior às possibilidades de defesa que poderiam idealizar. A luta entre Davi e Golias desta vez deu-se pela lógica: venceu o gigante.
Várias foram as manifestações populares em todo o país cultuando o novo símbolo da resistência estudantil: o corpo de um adolescente que saiu de casa para iniciar uma nova etapa em sua vida; que trabalhava e estudava na esperança de ajudar a mãe a viver melhor. Edson Luís nunca teve a menor identificação de um líder nato ou posicionava-se como um. Nunca quis ser um herói, ainda mais desses que são criados a partir da extinção de sua pessoa. Era apenas mais um garoto que buscava melhorar sua condição social através da obtenção de reconhecimentos educacionais. Apenas mais um estudante dentre os milhares de alunos que freqüentavam o restaurante do Calabouço. Após a constatação de um cadáver, a espetacularização da vida tomou forma com o surgimento de novos personagens que manipulariam aquele episódio. Todos queriam demonstrar o seu repúdio contra o assassinato de um jovem estudante, indiferente se o conheciam ou não. A morte de Edson Luís foi o primeiro incidente que sensibilizou a opinião pública para a luta estudantil.

O decorrer dos dias

Temendo que a polícia desaparecesse com o corpo do estudante baleado, os manifestantes não permitiram que ele fosse retirado para o Instituto Médico Legal e o carregaram em passeata para a Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, onde o artefato fúnebre foi velado. A própria necropsia foi realizada no local sob o cerco armado da Polícia Militar e de agentes do DOPS, e o seu atestado de óbito emitido ali mesmo. No período que compreendeu o velório e a missa de ressurreição promovida na Igreja da Candelária, várias manifestações foram realizadas pelo país. Propriamente o Estado do Rio de Janeiro parou no dia do sepultamento. Os cinemas localizados na Cinelândia anunciavam três exibições com títulos alusivos ao fato: A noite dos generais, À queima-roupa e Coração de Luto. Centenas de cartazes foram colados com frases de insurgência, tais como: “Mataram um estudante!” E se fosse o seu filho?” ou “Os velhos no poder e os jovens no caixão!”. Edson Luís foi enterrado como um mártir ao som do hino nacional brasileiro, homenageado quase como um ex-combatente de guerra, desses que morrem defendendo o seu país das forças opressoras que o sufocam.
O clima ainda tenso permaneceu até o dia 2 de abril, quando foi realizada uma celebração pela morte do estudante na Candelária. Ao fim da cerimônia, ocorrida durante a manhã, as pessoas que deixavam o recinto foram surpreendidas pela Cavalaria da Polícia, cercadas e atacadas a golpes de sabres e cassetetes. Várias ficaram feridas e algumas detidas pela corporação. Uma outra missa estava marcada para ser celebrada no mesmo dia, porém os militares haviam determinado a sua proibição e se posicionaram para reprimi-la sob qualquer forma. Do lado de fora da Matriz foram mantidas três fileiras de soldados a cavalo, mais o apoio do Corpo de Fuzileiros Navais e vários agentes do DOPS.
Apesar de não terem se envolvidos diretamente até aquele momento, alguns padres resolveram intervir em prol de seus fiéis. Sem temer uma retaliação futura, o vigário-geral do Rio de Janeiro, Dom Castro Pinto, se negou a proibir a realização da missa noturna. Esperando uma nova investida militar contra a população presente ao término da celebração, um ato de extrema bravura e coragem foi tomado pelos párocos presentes à cerimônia. Posicionando-se em duas correntes mantidas apenas pelas mãos dadas, formaram um enorme corredor por onde passaram os quase 600 fiéis que foram ao ato religioso. Os padres mantiveram-se presentes na Rua Rio Branco até que o último fiel passasse, sob os olhares conturbados dos policiais. Apesar do esforço, foi inevitável um novo confronto nas imediações da Cinelândia entre manifestantes e os cavalarianos.
A morte do estudante ainda gerou uma grande passeata no Rio de Janeiro, em 26 de junho. A Passeata dos Cem Mil no centro da cidade, mais especificamente na Cinelândia, foi a maior e mais importante manifestação de protesto ocorrida no país desde a instalação do regime ditatorial no Brasil. Promovida pelo movimento estudantil, a marcha contou com a presença de intelectuais, artistas, operários e grande parte da população carioca. Suas principais reivindicações foram o restabelecimento das liberdades democráticas, a suspensão da censura à imprensa e um maior apoio ao desenvolvimento da educação no país.

A necessidade de se criar mártires

Você já reparou quantas estátuas e monumentos existem espalhados pelo país? Já procurou saber sobre quem foi aquele personagem esculpido e mantido ali, parado, em uma praça no qual você nem retém o seu tempo de parar ou mesmo contemplá-lo através de um breve olhar? Já pensou porque somos árduos patrióticos ao defender o nome de nosso país em qualquer esporte ou situações que remetam a uma imagem positiva, mas totalmente carentes de um regime político que realmente igualasse as condições de sobrevivência de cada um de nós, nascidos ou não nessa nação?
Vamos ponderar que um instrumento clássico para legitimar um regime político é a ideologia e a justificação racional da organização do poder. Como ponto de partida, voltaremos a um período posterior a saída de Dom Pedro II do Brasil. Com a proclamação da República, três correntes filosóficas disputavam a definição ideológica de governo para o novo regime que se instaurava com o fim da monarquia. Existiam os defensores do liberalismo à americana, os jacobinos à francesa e os positivistas. Durante algum tempo, as três ideologias se combateram nos anos que procederam ao início do processo de transição política no Brasil. Acabou prevalecendo a ideologia de uma nação mantida sob um regime liberalista de governo: uma sociedade composta por indivíduos autônomos cujos interesses eram compatibilizados pela mão invisível do mercado financeiro. O que vale ser discutido é a conscientização de valores sobre a república, estabelecida para uma população fora das elites do poder, e as tentativas para a aplicação desse ato. Ele não poderia ser realizado por meio do discurso, inacessível a um público com um baixo nível intelectual. Deveria ser representado através de sinais bem mais universais e de leitura mais fácil, como imagens, símbolos e a criação de mitos. A importância da criação de um meio de comunicação que atingisse a mais simples das pessoas era necessária para a formulação da imagem do novo regime, cuja finalidade era atingir o imaginário popular para recriá-lo dentro dos valores republicanos.
A elaboração de um imaginário é parte da legitimação de qualquer regime político e é por meio desse canal de comunicação que se podem atingir não somente a mente de uma pessoa, mas também o seu coração. Atingir o coração é atingir as aspirações, os medos e as esperanças de um povo. Esse imaginário social é constituído por ideologias e utopias que se misturam a uma linguagem simbólica capaz de controlar a opinião e os atos de cada cidadão. O culto a imagem de símbolos e o surgimento de mitos, por possuírem um caráter de leitura menos codificada, tornaram-se elementos poderosos na projeção dos interesses políticos de manipulação em massa.
Para não se tornar uma nação sem memória, uma vertente positivista apoiada por Benjamim Constant visionava uma integração da história através de uma interpretação do passado e do presente, além de uma projeção no futuro, com a construção de monumentos por todo o país. Seus maiores expoentes foram o artista Décio Villares, autor de obras como o monumento dedicado a Benjamim Constant, localizado na Praça da República, e Eduardo de Sá, autor do monumento dedicado a memória de Floriano Peixoto situado na Cinelândia, todos na capital do Rio de Janeiro. Os exemplos citados são discursos que obedecem não somente às idéias políticas ou filosóficas de alguns pensadores, mas provêm uma concepção estética segundo a qual a arte deve ser idealizada a partir da realidade, exaltando o lado afetivo do ser humano e promovendo um culto cívico da família, da pátria e da humanidade.
Sobre a necessidade em se criar mitos, analisaremos a estruturação cultural para a formação de um mártir. A figura do herói representa um símbolo que reflete um grande poder de assimilação no público, tornando-se encarnação das aspirações civis e ponto de referência para a moralidade e unificação popular. Não há um regime que não promova o culto de seus heróis ou não possua um referencial de líderes políticos. Em algumas situações, os heróis surgiram das lutas que precederam a uma nova ordem social, incluindo as lutas armadas ou a realização de feitos relevantes para o engrandecimento da pátria. Em outros, de limitadas abrangências populares como foi o episódio do Restaurante Calabouço, foi necessário um esforço maior de comoção pública que causasse o seu surgimento. O assassinato de um jovem estudante, morto pela polícia em uma manifestação que inicialmente não tinha a intenção de obter uma projeção tão grande, promoveu Edson Luís a essa categoria de salvador da pátria. É nesse contexto de heroísmo que o estudante se encaixa: na falta de um envolvimento real do povo na percepção e assimilação de uma ideologia favorável a causa dos estudantes por meio de uma mobilização simbólica capaz de movimentar toda a sociedade brasileira. Um verdadeiro mártir, de algum modo, deve representar o espírito de luta de um povo. Ele deve responder aos anseios e aspirações coletivas refletindo algum tipo de personalidade ou de comportamento que corresponda a um modelo que seja aceito e respeitado pela população. Não era esse o caso do estudante do Instituto Cooperativo de Ensino. De qualquer maneira, o caso do Restaurante Calabouço teve a sua significância histórica, mas foi preciso a existência de um cadáver, preferencialmente o de um aluno que tivesse sofrido uma morte trágica, para que o mito do herói tomasse forma dentro daquele ambiente de insatisfação política. Indiferente a quem fosse dada a póstuma honra de mártir, bastou o incidente entre os estudantes cariocas e a Polícia Militar para que o Governo Federal adiantasse o processo de criação de uma lei punitiva à insubordinação popular, assustadoramente batizada de AI-5. (CS)

Imagem retirada do site www.google.com

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Ruy da Costa Val


O ano de 1968 foi marcado pelos movimentos estudantis em quase todo o planeta. As autoridades buscavam conter os vários protestos dos estudantes contra seus governos através do uso da força e de mecanismos de repressão. No Brasil, o regime manteve uma linha dura contra os manifestantes, agindo com punições, cassações, suspensão de direitos políticos, prisões, espancamentos, torturas, desaparecimentos e ocultação de cadáveres, exílio e várias outras atrocidades contra o direito civil.
Durante a Guerra Fria, uma enorme indução norte americana havia se instalado sobre a sociedade brasileira. Essa influência foi percebida em diversas áreas das esferas sociais, como na música, no cinema, na alimentação e no estilo de vida de alguns brasileiros. Mas foi na educação que a ingerência dos Estados Unidos acabou por provocar os estudantes universitários, liderados pelo diretório estudantil da UNE.
Segundo os dirigentes da União Nacional dos Estudantes, o governo brasileiro tinha a intenção de modificar, gradativamente, todas as universidades federais em regime de fundação. Essas mudanças foram uma imposição da Agência de Desenvolvimento dos Estados Unidos (USAID) em cumprimento aos acordos feitos pelo Brasil com a agência. A não concordância com o que fora combinado pelo Ministério da Educação e Cultura e o órgão norte americano foi a principal reivindicação dos estudantes naquele momento.
Após o golpe, o novo governo instaurado pelos militares promulgou uma lei com o objetivo de sufocar qualquer manifestação estudantil. A "Lei Suplicy", do então Ministro da Educação Flávio Suplicy de Lacerda, proibia a participação dos estudantes em questões políticas, suprimindo a liberdade de organização. Na tentativa de manter o controle sobre as ações dos estudantes, a polícia não hesitava em agir com autoritarismo e violência. A Igreja católica, tradicionalmente conservadora, assumiu a defesa dos estudantes e muitos padres eram vistos durante as passeatas e manifestações. Fatos como esses se tornaram comuns na sociedade belo horizontina.
Ao recordar esse tempo, Dona Olga Maria Ferreira da Costa Val, viúva do ex-deputado federal Ruy da Costa Val, membro do partido da ARENA, relembra como era difícil conter o ímpeto estudantil da adolescência pelo regime dos militares. Casada com um político democrata e membro de uma sociedade envolvida e vigiada pelo regime, essa gentil senhora revela os bastidores que antecederam o Ato Institucional nº. 5 em Belo Horizonte e a participação do seu marido na política belo horizontina.
Nascido em seis de setembro de 1924, em Viçosa (MG), Ruy da Costa Val era filho de João Braz da Costa Val e Vicencina Martino Val. O seu pai foi ex-prefeito de Viçosa e juiz de Direito do Estado de Minas Gerais, considerado uma figura de renome na política mineira.
Formado no curso de Direito pela UFMG, em 1949, ingressou na política como vereador exercendo o mandato entre 1955 a 1967 pelo Partido Democrata Cristão (PDC). Durante sua carreira política, Ruy também se filiou ao Partido Republicano (PR), vindo a mudar novamente com a revolução de 1964, quando compôs o partido da Arena. Findado o seu mandato, elegeu-se vereador pelo Partido Democrático Socialista (PDS) anos mais tarde. Como vereador, foi presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte em três legislaturas.
O cargo de deputado federal durou de 1967 a 1971, quando integrou a Comissão de Economia da Câmara. Depois, foi eleito deputado estadual por duas vezes, entre 1971 e 1975 e no período de 1979 a 1982, licenciando-se da legislatura para ocupar a Secretaria do Trabalho e Ação Social no governo de Rondon Pacheco.
A princípio, quase toda a população apoiava o movimento revolucionário movido pelos militares contra o governo de João Goulart. O medo da ameaça comunista gerava inquietações e comentários em todos os locais em que o tema era abordado. Os fortes conflitos de violência na ex-URSS e as notícias de freqüentes fuzilamentos na ilha de Cuba, disseminavam a imagem de um regime autoritarista bem próximo de ser praticado também no Brasil pelos adeptos do comunismo. Assim, quando da tomada do poder pelo Exército, parte da população de Belo Horizonte saiu nas ruas para aplaudir o desfile dos carros do exército e da polícia militar na comemoração da deposição do ex-presidente.
Nos anos que se seguiram, a opinião pública começou a perceber que os métodos usados pelos militares para monitorar o movimento vermelho havia tomado outras proporções. A liberdade de cada cidadão passou a ser cerceada e o movimento estudantil visto como um foco constante da ideologia política comunista.
Segundo Dona Olga Costa Val, durante o ano de 1968, véspera do rigoroso AI-5, pessoas próximas se tornaram espíãs do governo militar e passaram a se infiltrar nas reuniões familiares para saber o que pensavam determinados grupos. Muitos eram antigos conhecidos que informavam ao regime sobre atitudes suspeitas de vários políticos em troca de uma liberdade maior. Não é errado afirmar que essa atitude pode ser chamada de uma delação premiada, onde quem informa recebe uma anistia parcial sobre os próprios atos.
A casa nº. 1.817 situada na rua São Paulo, no bairro de Lourdes, foi palco de muitas reuniões entre os principais políticos da época. A região era habitada por muitos estadistas e pessoas ligadas ao governo de Minas, sendo o ex-governador Hélio Garcia vizinho dos Costa Val. Continuamente, um carro de polícia ficava próximo as imediações da residência amarela, monitorando o que se passava no bairro. Da janela de seu quarto no andar superior, Olga observava a rotina de insegurança que se aproximava ainda mais com a chegada do fim do ano.
Mesmo com as filhas cursando o antigo 2º grau de ensino próximo de casa, a intranqüilidade era sempre visível a cada ida e vinda da viatura. Havia sempre o risco de uma ação militar contra os estudantes. Alunas do Colégio Estadual Central, Maria da Graça e Valéria simpatizavam-se com o movimento estudantil participando, algumas vezes, de passeatas escondidas do próprio pai. Essa pequena mostra de concordância com os ideais estudantis da época era muito perigosa. Muitos sabiam que o pai delas era do governo e uma denúncia colocaria a carreira política dele em perigo. E Dona Olga tinha razão em seus temores. Bastava uma denúncia anônima para que a polícia invadisse qualquer residência, mesmo sendo a denúncia infundada e sem a legitimidade de provas. Essa própria atitude foi usada contra Ruy por seus inimigos políticos, que o denunciaram duas vezes por subversão política. Não tendo o que temer, Costa Val compareceu ao antigo ID 4, localizado na rua Santa Catarina, para prestar esclarecimentos. O órgão faz parte da circunscrição militar do Exército em Belo Horizonte e era comandado pelo general Dióscolo do Vale, um homem tido como linha dura dentro do sistema político da época.
“Eu já tive que pegar o carro e sair dirigindo correndo para ver onde as meninas estavam, pois a polícia estava batendo em todos os estudantes que faziam uma passeata perto do colégio e todo mundo tinha que fugir para não apanhar”, relembra, sorrindo, de como foi difícil criá-las durante o regime.
Ruy da Costa Val era funcionário da Prefeitura Municipal e havia pedido licença do cargo para se eleger vereador na capital. Durante o período que antecedeu as eleições para a Câmara Federal, Costa Val era o presidente da Câmara dos Vereadores de Belo Horizonte. Incentivado por uma corrente política e por seus eleitores, candidatou-se a cadeira de deputado federal e alcançou, no pleito, a suplência do cargo na Casa. Dois meses antes de ser instaurado o AI-5, um dos deputados foi nomeado para o Tribunal de Contas do Governo, surgindo a vaga para a cadeira principal. Com a promulgação do Ato Institucional e o fechamento do Congresso, ficou mais de um ano sem receber provento financeiro algum, entrando em uma grave crise financeira. Não recebia como deputado e não podia voltar para a Prefeitura por ainda possuir um mandato a ser cumprido.
Dona Olga relembra os dias difíceis: ”(...) passamos muito aperto. As meninas estavam estudando e as contas com a campanha para a Câmara estavam quase todas vencidas. O Ruy teve que vender a casa para honrar os compromissos e cuidar de toda a família. Quando foi reaberto o Congresso, seu mandato já estava quase no final. Ninguém recebeu um centavo enquanto a Casa estava fechada. Esse foi um dos castigos do regime militar contra todos os deputados”.
Durante 1968, no auge do temor comunista, personagens ilustres freqüentavam as festas oferecidas para a sociedade belo horizontina. As celebrações eram pretextos para monitorar a sociedade influente da capital de Minas. Um deles foi o cônsul norte-americano Lawrence Laser. Muitos suspeitavam que ele também fosse membro da CIA infiltrado entre eles, a serviço dos generais e do próprio Estados Unidos para denunciar focos comunistas em Belo Horizonte.
Laser veio para a cidade com o discurso de reunir os democratas e os que eram a favor da democracia. Segundo Dona Olga, “era um rapaz simpático e muito inteligente que freqüentava muito a nossa casa. Ele era casado e possuía uma casa muito boa, onde dava festas para se aproximar das famílias dos políticos daqui”. Entre as curiosidades a respeito do norte-americano estava uma bolsa preta que ele não largava de seu lado. Nunca a abrira na presença de ninguém. A única pessoa em que confiava a guarda da valise era para a esposa do deputado Costa Val, pois acreditava na idoneidade e bom senso de sua anfitriã. Após a instauração do AI-5, ele retornou para o seu país.
Durante os anos de chumbo (1968-1974), sob a tutela do General Emílio Garrastazu Médici, outro cônsul americano começou a freqüentar as rodas políticas e sociais de Belo Horizonte.
Robert Fanbrini tornou-se amigo do deputado Costa Val e de sua família. Celebrando essa amizade, sempre procurava por Ruy com a lista dos políticos que iriam ser caçados pelo regime Médici. Essa atitude proporcionava ao mineiro avisar aos amigos próximos que constavam o nome na lista, dando chance a eles de se defenderem de uma possível cassação ou de um exílio político. Entre os delatados estavam nomes como Gerardo Renault, ex-deputado, e o de Humberto Reis, um atuante político da época.
Além de um político engajado socialmente com seus eleitores e amigos, Ruy da Costa Val também exerceu o magistério, integrando os corpos docentes do Instituto Municipal de Administração e Ciências Contábeis (IMACO) e dos colégios Santo Antônio, Anchieta, Arquidiocesano e Municipal. Como escritor, publicou os trabalhos “O direito inglês e os direitos ocidentais”, “Métodos de pesquisa filosófica”, “Pareceres e votos” e “O problema da gratuidade do mandato de vereador”.
Hoje, quase quarenta anos após a instauração do Ato Institucional nº. 5, Dona Olga da Costa Val continua residindo em Belo Horizonte, agora no bairro da Serra. Da varanda de seu apartamento, comprado pelo marido através de muito sacrifício, nossa ilustre entrevistada faz uma última ponderação sobre a carreira de Ruy: “(...) ele foi um homem que sempre trabalhou para ajudar os outros, inclusive até o próprio América. Uns falavam que ele era doido... eu só sei que ele pensava muito a frente daquele tempo”, concretizou.
Ruy da Costa Val morreu em 22 de agosto de 1991, de septicemia pós-operatória no Hospital Biocor, em Belo Horizonte. O velório ocorreu na Assembléia Legislativa e seu corpo sepultado no cemitério do Bonfim.
Em 24 de março de 1992, o prefeito Eduardo Azeredo inaugurou a Escola Municipal Ruy da Costa Val, localizada na Rua 28 nº. 30, no Conjunto Felicidade, em Belo Horizonte, em justa homenagem ao estadista e político mineiro.

O grande amor pelo América Futebol Clube

Mesmo se dedicando quase que totalmente a política, Ruy da Costa Val não esquecia o seu time do coração e sofria com as dificuldades que o América mineiro passava. Decidiu que poderia fazer alguma coisa e, junto com outros ilustres torcedores, uniram-se para ajudar na superação das dificuldades do clube.
Por ocasião da grande crise financeira por que passava o América Futebol Clube no ano de 1969, alguns torcedores americanos se uniram para tentar salvar a agremiação mineira. Nomes como o de Roberto Prates, Antônio Augusto Coelho, Lísio Juscelino Gonzaga, Roberto Calvo, Pedro Servo e muitos outros, se juntaram ao de Ruy para reorganizarem o clube.
Com o afastamento do presidente Amador de Barros, o Conselho Deliberativo, dirigido por Milton Machado Mourão, resolveu entregar o comando da instituição ao deputado federal Ruy Costa Val, que já defendera as cores do clube como atleta, atuando na posição do antigo arqueiro. Durante as eleições de 1970 para a presidência, Costa Val assumiu definitivamente a condição de presidente eleito.
Enfrentado sérias dificuldades no orçamento financeiro, a diretoria conseguiu manter a base da Taça Belo Horizonte para a disputa do campeonato mineiro do ano de 1971. Sob o comando do técnico Lísio Gonzaga, o popular Biju, o América iniciou uma das campanhas mais bonitas de toda a sua história, lembrada e comentada por todos os torcedores americanos. No final do primeiro turno, o clube era o líder a frente do Cruzeiro, havendo perdido apenas um ponto para o rival durante um empate. Iniciado o returno, uma má notícia invadia a concentração americana: o técnico Biju era obrigado a se afastar por recomendações médicas, assumindo o seu auxiliar Henrique Frade.
Impondo o seu estilo de trabalho, Frade conseguiu manter o mesmo nível técnico do início da competição e a equipe continuou no embalo para a conquista do campeonato. A apreensão final aconteceu na penúltima rodada do torneio, quando um empate com o Fluminense, da cidade de Araguari, dentro do Mineirão, colocava o Cruzeiro empatado em primeiro lugar junto com o Coelho na briga pelo título do estadual. Como a missão do América e da diretoria era superar obstáculos, agiu a voz do presidente. Ruy da Costa Val foi conversar com os atletas para demonstrar o apoio e a credibilidade da diretoria no grupo. Toda a equipe correspondeu a altura ao apelo do dirigente. Não se intimidaram e nem tão pouco perderam a tranqüilidade. Na última rodada derrotaram o Uberlândia, em uma exibição de gala. Empatado em primeiro lugar com o América, o Cruzeiro necessitava de uma vitória sobre o Atlético para se tornar campeão, coisa que não aconteceu. O Galo venceu, confirmando o campeonato ao Coelho. A equipe era formada por Élcio, Batista, Vander, Misael, Cláudio, Pedro Omar, Dirceu Alves, Amauri, Zé Carlos, Jair Bala, Hélio, Valtinho, Zé Horta, Hale, Café, Elter, Edson, Eli, Dario Alegria, Generoso, Antônio Carlos Dias e Emílio.
A campanha no Brasileiro de 1973 foi a melhor que o clube já teve no Nacional. O América chegou em sétimo lugar, comprovando que mudanças significativas tinham sido realizadas no clube pela diretoria.
Uma grande polêmica da gestão de Ruy da Costa Val foi a venda da área situada na avenida Francisco Sales, atual Extra Supermercados, em 1970. No local estava construído o estádio Otacílio Negrão de Lima, chamado na época de Alameda. A venda era uma imposição da grave crise que assolava o clube, ameaçando-o até de fechamento. A desaquisição do patrimônio gerou debates sobre os rumos do América e foi deliberada na Assembléia Geral do clube, órgão máximo legislativo que, depois de uma comissão examinar todos os aspectos da situação financeira da instituição, aprovou a venda do imóvel.
Em termos realísticos, segundo o presidente Costa Val em entrevista ao jornal Estado de Minas na época, o que se verificava era um endividamento cada vez maior através de um déficit mensal crescente. Os títulos protestados passavam de centenas, as folhas de pagamento de atletas e dos funcionários nunca eram saldadas em dia e os fornecedores não recebiam há meses.
Na época, os diretores e o presidente emitiam títulos em seus nomes e se tornavam responsáveis por importâncias muitas vezes acima até de sua capacidade, porque os bancos não mais emprestavam ao América. Poucos sabiam que a metade do campo do Alameda não mais pertencia ao clube, pois havia sido desapropriada pela Prefeitura Municipal, segundo relatou o presidente. Essa parte era exatamente a mais valiosa, pois dava frente para a avenida Francisco Sales. Recuperar o que fora desapropriado passou a ser a grande batalha americana. Além do mais, e por incrível que possa parecer, o clube não era dono legalmente de muitas partes da área que ocupava. No decorrer dos anos, as imediações do Alameda haviam avançado sobre pedaços de terrenos de terceiros. Para legalizar a situação, a diretoria teve que contar com a boa vontade do Estado, lavrando e registrando várias escrituras.
O próprio campo já não era mais aproveitado para jogos e nem para treinos do clube, principalmente por causa de suas pequenas dimensões, não chegando se quer a 100 metros de comprimento. O América vivia, literalmente, debaixo das arquibancadas, onde funcionavam os seus escritórios, vestiários, refeitório e dormitórios dos atletas. As reuniões importantes do Conselho eram sempre realizadas em auditórios emprestados de outras entidades.
Assim como o América, os campos de Atlético e Cruzeiro também não apresentavam condições de uso. O Galo vendeu seu campo e mudou-se para a região da Pampulha. O Cruzeiro, desfrutando de uma fase extraordinária, construiu a Toca da Raposa e sua sede campestre.
Com o dinheiro arrecadado pela venda do imóvel da avenida Francisco Sales, o América comprou o Samarkan Pampulha Hotel, uma área de 20 mil m² localizada na Pampulha, adquiriu o Vale Verde, comprou uma sede social e pagou todas as suas dívidas.
A paixão pelo futebol era tamanha que Ruy da Costa Val foi membro, vice-presidente e secretário do Conselho de Administração do estádio Minas Gerais, além de ocupar o cargo de juiz do Tribunal de Justiça Desportiva da Federação Mineira de Futebol. (CS)

Fotografia cedida do arquivo pessoal da família

A importância do jornalismo de bairro


Durante os anos de 1823 a 1835, existiu no país um jornal chamado O Sentinela da Liberdade que, forçosamente, era produzido dentro das antigas cadeias do Brasil colonial. Não que isso fosse uma característica própria, mas consistia exatamente na localização onde estava detido o seu editor, o inquietante jornalista Cipriano Barata. Diplomado em Matemática, Filosofia e Medicina, passou boa parte da sua vida na prisão. Em cada cárcere criava o seu periódico a favor da independência do país contra a influência da Corte portuguesa. Assim surgiu o nome O Sentinela da Liberdade da Guarita, complementado com a localização da cadeia onde ele estava preso. O ideal jornalístico de Barata estava acima de qualquer impedimento físico, voltado para a informação e conscientização de uma população local que necessitava de esclarecimentos sobre a política e os aspectos sociais que os envolviam. Quase dois séculos após Cipriano Barata ter criado o seu Sentinela da Liberdade, as idéias e os ideais de um jornal voltado para uma população específica e regional continuam prevalecendo nos dias atuais, sob a responsabilidade de profissionais que assimilaram a própria essência do que é praticar jornalismo com responsabilidade social.
No dia 04 de dezembro de 2007, o estudante de jornalismo Wenderson Cardoso apresentou a monografia final para a sua graduação acadêmica pela Faculdade Estácio de Sá de Belo Horizonte. Diante de uma banca formada pelo professor-mestre Marcelo Freitas e pelo coordenador do projeto monográfico, o professor-doutor Romildo Raposo, Cardoso defendeu a sua intelectualidade.
Construída sobre uma experiência pessoal de quase 19 anos no segmento jornalismo de bairro, a monografia apresentada trouxe como tema A influência social do Jornal Criart-Vida no combate às drogas na região do Barreiro. Basicamente, refletiu sobre a proximidade do jornal de bairro junto aos problemas e a realidade da comunidade, proporcionando uma oportunidade para que cidadãos carentes sejam ouvidos através de uma espécie de ponte ou elo entre a comunidade e os poderes públicos. No caso específico do Criart-Vida, o jornal – além das características próprias desse modelo de veículo – é direcionado ao combate às drogas que envolvem o comportamento dos dependentes químicos, divulgando programas para se evitar o uso e a conscientização dos malefícios causados por elas. Em suas páginas, o jornal também possui editorias sobre o meio ambiente, responsabilidade social, saúde e outros assuntos voltados para o bem estar da população do Barreiro. A grande dificuldade encontrada por Wenderson Cardoso para a montagem da monografia foi o embasamento teórico, visto que há pouco material didático sobre o assunto. Conforme apurado por ele, a única especialista na área é a pedagoga e psicóloga Beatriz Dornelles, que se especializou nesse segmento na cidade de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. As informações para o projeto monográfico foram colhidas através de artigos e trabalhos elaborados por ela. Realizada a monografia, o aspirante a bacharel relembrou os momentos de apreensão diante da banca examinadora. “É muito difícil estar ali e não ficar nervoso. Passava um filme na minha cabeça. Toda a minha vida e todo o meu esforço estavam ali para serem julgados. Graças a Deus que tudo correu muito bem”, sorrindo aliviado pela aprovação de sua obra.
Wenderson Cardoso, desde o ano de 2000, participa como proprietário de um jornal de bairro, o Imprensa Global. Segundo afirma, “o jornal de bairro não é seu. Você junta com pessoas que dividem essa mesma ideologia do jornalismo de bairro e constrói a imagem do veículo. Por isso que apenas ‘participo’ da direção do jornal”, enfatiza. Cardoso ingressou na faculdade em 2004 para ter o direito de exercer o jornalismo de forma reconhecidamente acadêmica, já que possui o registro profissional mantido através de liminar judicial.
De auxiliar de necropsia a jornalista, Wenderson Cardoso pode ser comparado a uma espécie de Cipriano Barata do século XXI, com exceção do envolvimento com o cárcere ou com débitos judiciais. Assim como o próprio, também é formado em Ciências Físicas, Químicas e Biológicas. Essa qualificação proporcionou exercer a profissão de professor de Matemática, Física, Química e Biologia pelo Estado de Minas Gerais. Além de educador, Wenderson Cardoso formou-se em mecânico de aviões pela Polimig, chegando a trabalhar como especialista em estrutura de aviões em elétrica, eletrônica e pneumática para aeronaves. Também possui curso de aviador e brevê de piloto.
Após o falecimento do seu pai, Cardoso desistiu da carreira na aviação e passou a se dedicar ao cinema. Na nova empreitada, formou-se em roteirista e diretor cinematográfico, tendo produzido três curtas-metragens.
A primeira oportunidade em um jornal que não fosse administrado por ele mesmo aconteceu no Edição do Brasil. Ao ler uma placa na rua com os dizeres “Edição do Brasil: Jornal de Clube” teve logo o insight de entrar e ver como era a redação. Atendido pelo jornalista Arthur Ferreira, pediu logo uma oportunidade para fazer um estágio, já que estava matriculado e estudando o segundo período de jornalismo na Faculdade Estácio de Sá. Como já esperava, foi aprovado em um teste prático e passou a assinar matérias para o veículo. Atualmente, Wenderson Cardoso é proprietário da agência de notícias Newsmaker Brasil e editor responsável pelo jornal Minas Editorial, veiculado em 20 cidades do estado de Minas Gerais.
Sobre a conclusão do curso de jornalismo, Cardoso é categórico: “a faculdade não faz um jornalista. Ele é um profissional por essência. O fascínio pelo jornalismo já está dentro dele, corre em suas veias. A faculdade apenas oferece o suporte técnico e ideológico para ele se aperfeiçoar sob um modelo ético de praticar o jornalismo de forma profissional”, analisa, refletindo como exemplo, a própria experiência adquirida com os jornais de bairro que produziu.
(CS)

Fotografia: Claudinei Souza

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Quem comanda o caos?


O ato de usar alucinógenos como alternativa de fuga social é um processo comportamental estudado e debatido há séculos por muitos filósofos, sendo tema de teses e livros como o clássico As Flores do Mal, do francês Charles Baudelaire. O consumo de entorpecentes acaba sendo um direito individual de liberdade sobre o que fazer com a própria vida, respeitando-se o sentido de livre arbítrio concedido desde a gênese humana. É aceitável desde que o indivíduo possa ser responsabilizado criminalmente por atos contra as normas de boa conduta social, violação do direito alheio ou por qualquer ação que cause danos a outros.
Em alguns lugares do mundo - como na Alemanha e Holanda - o governo local acabou liberando o uso da maconha em espaços públicos, restrito a alguns pubs e cybercafés na Europa. Essa atitude levou em conta que o uso da canabis pode provocar a indução a outras drogas, independente da classe social ou do meio em que vive o indivíduo.
É certo que a aquisição de drogas financia a violência, a compra de armas e aumenta a coação através do enorme volume financeiro que é gerado pela venda desses produtos.
A problemática está no controle de todo esse mercado. Quem administrará a violência e o terror instaurado pela ganância do lucro fácil? Mais do que isso, existe a questão sócio-cultural do nosso país.
Compará-lo - um país que possui pouco mais de 500 anos de descoberto e uma democracia que ainda está em formação - com os grandes centros culturais europeus é um absurdo. Falta à população brasileira a cultura de saber respeitar os direitos dos outros. A vinculação do uso de drogas com a violência é formalizada pela pouca cultura da população, inclusive a da classe média.
O desejo pela fuga social é deturpado pela vontade de rebeldia e insurgência contra o Estado e as condições de sobrevivência que ele nos impõe. Não se pode confundir ou aceitar que direito de expressão e manifesto de repúdio seja manipulado pela ideologia criminal. Por essa perversa ótica, cidadãos comuns se tornam criminosos pela simples condição de querer ser alguém de relevância dentro desse sistema predatório, recorrendo a formação de grupos especializados em promover o caos.
Mais do que isso, a violência é um fator que se tornou característica pela própria condição do poder de ostentação da marginalidade, de criminosos que atentam contra a liberdade alheia por se achar excluído da sua própria. É uma guerra pelo direito de querer ser um cidadão respeitado e de boas condições financeiras, de poder sentir e possuir uma condição melhor do que lhe foi ofertado pela vida. E isso tem um preço!
A corrosão de todo o sistema promove o aliciamento financeiro do tráfico de drogas, onde cada vez mais adolescentes estão entrando para o sub-mundo por encontrarem nele o lucro fácil, o dinheiro fácil de se ganhar.
Paliativamente, medidas funcionais que promovam a inserção do cidadão ao mercado de trabalho e a promoção de valores sociais é um discurso que não consegue apaziguar totalmente o caos instaurado. A solução talvez ainda esteja por vir, assim como ocorreu na Europa.
Por enquanto, legalizar talvez não seja a melhor escolha, pelo menos para os próximos anos. (CS)

Imagem retirada do site www.google.com